As vezes me pergunto: o que me faz diferente desse tanto de gente que roda pelas ruas queimando pedra. Qual parte de mim, social ou genética, que me salvou do vício?
Eu acredito que cada uma dessas pessoas travava uma luta muito intensa bem antes de ter sua vida interrompida pela droga. E que seu meio não favorecia em nada seu desenvolvimento, em todas as áreas. É mais fácil perder uma batalha quando não se tem recursos para entrar nela. Você é vulnerável a qualquer ataque, do mais simples ao mais grotesco.
Mas e eu?
Eu sempre me odiei, cada dia da minha vida, eu não me lembro um onde eu tivesse me admirado. Nunca tive incentivo em nada que eu tentasse. Fui privada de contato social durante um bom tempo da minha infância. Tive uma mãe escrota. Não tive o carinho dos meus avós. Fui traída por basicamente todas as pessoas em quem confiei. Ganhei de brinde da vida um transtorno psiquiátrico.
Eu não travo uma luta fácil.
Mas consigo transitar entre a sobriedade e o uso exagerado de uma maneira tão simples e descomplicada.
Eu me sinto um lixo.
Não me sinto melhor do que ninguém por não ser uma dependente química, muito pelo contrário, me sinto pior, me sinto nojenta, aproveitadora, torpe, privilegiada.
Eu não queria ter privilégio em cima de ninguém.
Me sinto pisando em cima dessas tantas pessoas que não conseguem ser como eu.
Mas apesar de sentir tudo isso, eu não consigo desgostar da cocaína.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
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